Em um mercado financeiro cada vez mais orientado por informação, saber analisar números é apenas o ponto de partida. O verdadeiro diferencial está na capacidade de transformar dados em clareza, direção e confiança. Foi com esse olhar que a Nortus Investimentos promoveu a palestra “Vá além dos gráficos: Storytelling com Dados”, conduzida por Karina Piva.
A seguir, reunimos os principais trechos da entrevista em formato ping-pong, explorando como dados podem — e devem — se tornar narrativas estratégicas.
Ping-Pong com Karina Piva
🎙️ Ping-Pong com Karina Piva
1- O que realmente significa “ir além dos gráficos” quando falamos de dados no ambiente corporativo?
A expressão Storytelling com dados ficou bastante popular e associada à construção de gráficos bonitos e autoexplicativos. Isso definitivamente é importante e é um alicerce para construir uma boa história sustentada por argumentos sólidos. O que eu digo é: dá para ir muito além dos gráficos. Storytelling com dados é a tradução da sua estratégia em uma narrativa, com contexto, insights e uma recomendação objetiva e acionável. Ater-se apenas ao gráfico para transmitir toda uma história é um esforço descomunal e, afinal, de que importa o gráfico se ele não responde à sua pergunta de negócio?
2- Qual é a principal diferença entre simplesmente apresentar números e construir uma narrativa estratégica com dados?
Muita gente tem números hoje, muitas planilhas, bancos de dados; coletamos tudo o que podemos e um pouco mais. Ainda assim, poucas empresas são data-driven. Não importa termos todos os dados do mundo se eles não estão a serviço de uma pergunta de negócio, se não sustentam uma decisão a ser tomada. A narrativa estratégica escolhe a dedo os dados mais relevantes para avaliar vantagens e desvantagens de determinada decisão; há sempre uma história por trás. E não estou falando de manipular informações. Nunca, em nenhum contexto, teremos tempo hábil para apresentar cada pedaço da análise a que chegamos. Precisamos fazer escolhas estratégicas, selecionar justamente aquilo que sustenta o caminho que devemos seguir. E, se os dados mostrarem o contrário, também ter a coragem de dizer isso.
3- Por que tantas análises tecnicamente corretas não conseguem gerar impacto ou influenciar decisões?
Pense comigo: há anos sabemos que fazer exercícios três vezes por semana é bom para a saúde. Quantos de nós fazemos? Não é uma questão de ter informação, é uma questão de colocá-la dentro de um contexto. De encontrar uma motivação, um porquê de aquilo importar. Na maior parte das vezes, nos preocupamos com o que entregar e esquecemos de visitar o verdadeiro motivador. O que vejo em muitas situações são pessoas pedindo um número, uma tabela, um gráfico, sem explicar a razão. E, se você for um bom “fazedor”, acaba executando sem também questionar — e todo mundo perde tempo.
4- Como conectar dados a contexto e estratégia para que eles realmente apoiem a tomada de decisão?
Gostaria de poder dar uma receita de bolo, mas esse “como” está muito relacionado a cada cultura corporativa. Pensando individualmente, sugiro alimentar a curiosidade, sentir-se à vontade para investigar o que está acontecendo, sair do olhar ultraespecializado da própria área e procurar entender o contexto macro. Se você continuar procurando respostas sempre nos mesmos lugares e do mesmo jeito, dificilmente aprenderá coisas novas. Intervenções complementares ou contrárias são ótimas para conectar novos pontos, fomentando insights alinhados à estratégia.
5- Existe uma estrutura ou método que ajude profissionais a organizarem melhor suas histórias com dados?
Existem várias estruturas, um punhado de frameworks disponíveis em diversos livros, tanto de estratégia quanto de consultoria, especialmente de dataviz. Os três livros que vejo como principais são: “Storytelling with Data” (Cole Nussbaumer Knaflic), “Persuading with Data” (Miro Kazakoff) e “Data Story” (Nancy Duarte). Ou, se preferir, pode esperar até o segundo semestre de 2026, quando lanço meu livro Além dos Gráficos.
6- Quais são os erros mais comuns que você observa nas apresentações e relatórios corporativos?
Muitas páginas, muitas e muitas páginas. Existe uma dificuldade enorme de sermos concisos em nossas histórias. Queremos mostrar cada detalhe das nossas descobertas como se isso validasse nossa capacidade e o quanto trabalhamos. Quando, na verdade, o poder de síntese — dizer em dois minutos seu contexto, seu aprendizado e sua recomendação — diminui a ansiedade de quem está na sala e permite estruturar melhor a narrativa. E digo mais: três a cinco slides costumam ser mais do que suficientes para provar seu ponto.
7- Qual a importância de um assessor de investimentos ser capacitado em storytelling com dados, especialmente na construção de confiança e clareza junto ao cliente?
Na minha percepção, o mercado financeiro acredita que o cliente quer ver planilhas e gráficos complexos. Isso é um mito. A verdade é que eu, como cliente, quero dormir tranquila e entender, de fato, se o dinheiro está no lugar certo. O assessor que domina storytelling com dados é um tradutor da complexidade do mercado. Confiança não se constrói mostrando que você sabe muito, mas mostrando que consegue explicar de forma simples o que é complicado; os dados são apenas a sustentação.
Se o assessor entrega só número, ele é um operador. Se entrega uma narrativa com dados que responde “o que isso significa para mim e para os meus planos?”, vira um parceiro. Ainda assim, é preciso muito cuidado: basta uma história que pareça que o assessor está passando a perna para que nenhum número seja suficiente para sustentar a parceria.
8- E como você enxerga o fato de a Nortus investir nesse tipo de desenvolvimento (storytelling com dados) para seus colaboradores?
Capacitação é algo relegado na maior parte dos ambientes corporativos; mesmo quando existe, as pessoas pensam nisso como “aquele treinamento da empresa”. Na Nortus, vi a criação de um espaço de fomento ao aprendizado, um ambiente seguro para troca e compartilhamento. Além do conteúdo, percebi momentos de conexão entre as pessoas, que puderam reconhecer desafios e dificuldades em comum.
Independentemente de ser storytelling com dados ou qualquer outro tipo de desenvolvimento, sempre acreditei no aprendizado contínuo. Afinal, se não fosse assim, não seria pedagoga de formação, mesmo depois de anos estudando engenharia elétrica. Acredito que o ser humano evolui por meio da colaboração — e esse é o melhor jeito de aprender.
Mais do que uma técnica de apresentação, o storytelling com dados se revela uma competência estratégica. Em um ambiente como o da Nortus Investimentos, onde decisões impactam diretamente o patrimônio e os planos de vida dos clientes, comunicar com clareza, contexto e responsabilidade é parte essencial da construção de confiança.
Ir além dos gráficos é, no fim, uma questão de estratégia. É usar dados como argumento para tomada de decisão.







